Estou no meu escritório,
esperando um caso,
da mesma maneira que uma planta brotar.
A meia-luz cobre meus olhos,
quase fazendo uma prece
para qualquer entidade me ajudar.
Quando a porta rangeu,
uma moça, com seu vestido moldando um corpão,
me solicitou meu trabalho.
Agradeci ao santo que eu segurava nas mãos.
Ela disse que seu marido podia ter um caso
com outra mulher no trabalho.
Meus olhos brilharam;
achei que seria fácil.
Deu-me metade do dinheiro,
virou-se de maneira monumental,
balançou seus quadris
e, como um peixe na isca, me fisgou.
Tava na cara que era cilada.
Me fisgou,
mas sou um Mussum,
um peixe ensaboado,
e liso eu sou.
Ela veio com essa
pra cima de quem já se manca,
mas Mussum eu sou,
não caio fácil.
Peguei minha câmera,
fui no endereço que ela marcou.
Fedia a uma privada
que há muito tempo ninguém lavou.
Achei uma janela
que facilmente mostrava todo o lugar.
Como os olhos de uma águia,
procurava meu roedor.
Após um bom tempo,
nada ali tinha pra sondar.
Achei então que seria divertido
na armadilha me enrolar.
Aquela mocinha, uma baita safada,
tinha um corpo
estatelado no meio da sala,
e o fotografado fui eu.
Aí que começou a emoção.
Se eu não encarasse essa furada,
fui eu
que seria o cabra acusado.
E de lá tinha que me pirulitar.
Fui eu,
mas já tinha ideia de como iria terminar.
Ouvi os zumbidos das azeitonas,
nas paredes fazendo buracos.
Me escondi,
pronto pra revidar
se tentasse me dar algum balaço.
Com meu velho três-oitão,
dois jagunços pra vala mandei.
Quando a moça, com voz mansa,
queria barganhar.
Era pra eu ser, desse assassinato, o culpado,
mas liso eu sou
e já tinha algo preparado.
Mussum eu sou
e minha isca mandei.
Eu tinha avisado os meus
que, caso a barra pesasse,
por que Mussum eu sou.
E pegamos a moça safada
e o cúmplice danado.
Este caso fechei
com a grana completa em minhas mãos.
Eu não sou enganado.
Este caso fechei
com a femme fatale enjaulada,
seus boing-boings pulando,
pra comprar o carcereiro
que cuida da jaula.
Sou Mussum.